O ALÍVIO DE UMA MENTIRA

     Toda sexta-feira à noite a rotina era a mesma: jogava o tênis, os meiões e o calção na mala do carro e partia para o clube, onde reservara um apartamento para o fim de semana.
     O futebol dos sábados e domingos era sua paixão, até perceber que, enquanto os homens corriam atrás da bola, suas belas esposas se banhavam ao sol.
     Com o tempo, a aproximação foi inevitável.— Cornélio, querido, este é o Tião Tripé. Vocês se conhecem do futebol, não é? — perguntou ela, que vestia um biquíni minúsculo, direcionando-se ao marido.
     Cornélio estendeu a mão, reclamando dos desfalques do Tripé nos últimos jogos. Tião deu uma desculpa esfarrapada qualquer e foram os três almoçar.
     Em menos de um mês, a intimidade era tanta que Tripé ganhou passe livre para visitá-los quando quisesse.
     Hamásia era magrinha, de pernas grossas e seios pequenos. Não chamaria a atenção de quem procura fartura, mas, para Tião Tripé, ela era perfeita.
— Para quem está em jejum, qualquer prato é luxo — já dizia o profeta.
     Certo dia, de folga do trabalho, Tripé resolveu arriscar. Descobriu que apenas ela estaria em casa. Mentiu dizendo que já estava passando pelo bairro e que queria dar um abraço neles.
— Sobe! — disse ela.
     Não precisou que dissesse outra vez. 
   No apartamento, jogaram conversa fora, mas o clima mudou rápido. Entre olhares carregados de maldade e provocações atrevidas, Tião aproximou-se e lhe deu um beijo no ombro. Ela fechou a cara e jurou que não tinha gostado. Ele não recuou. Deu outro beijo, desta vez bem no canto direito da boca. Hamásia se afastou, dizendo que ele era louco. Tripé insistiu com mais pegada até que ela o empurrou, escapando em direção ao banheiro. Ouviu o barulho da água caindo. 
     Ela estava tomando banho.
     Quando a porta se abriu e aquele perfume de pele limpa e quente invadiu a sala, ele enlouqueceu. Agarrou a mulher do amigo pela cintura, afastou as laterais do roupão e, de joelhos, enterrou o rosto a meio palmo abaixo do umbigo dela.
     A reação que deveria ter sido bater a porta na cara dele, trancar-se por dentro e esquecer que ele existia ficou na vontade, porque o corpo pedia outra coisa. Foi dando passos para trás, arrastando Tião preso entre as pernas, até desabar em uma poltrona. Com o auxílio das mãos, ela afastou mais uma perna da outra para que ele pudesse se afogar naquele prazer.
     Passaram horas ali, com ele de joelhos, mamando como um bebê. O resto da tarde passaram na cama, entregues a uma loucura que a fazia gemer, chorar, falar palavrões e clamar por Deus a cada investida. 
     Só pararam quando o estalo nítido da chave mexendo na fechadura da sala cortou o ar.
     Se não fosse por aquele barulho, ainda estariam lá, devorando-se.
     Hamásia correu em pânico para o quarto e ele se trancou no banheiro, com o coração parecendo que ia rasgar o peito. 
     Ouviu vozes e risadas abafadas na sala até que batidas firmes na porta do banheiro o obrigaram a responder, pedindo um minuto.
     Saiu com a cara vermelha. Para sua surpresa, Cornélio estava apontando para ele, gargalhando de se escangalhar.
— Minha mulher me contou tudo, seu otário! — disse ele, sem conseguir prender o riso.
— Ela disse que você chegou aqui praticamente cagado! Falou que aquela dor de barriga teria te matado se a porta estivesse trancada.
     Tripé respirou fundo, fingindo constrangimento. De fato, a mulher dele — e não a dor de barriga — foi a sua salvação. Se ela não tivesse inventado aquela mentira genial de última hora, Cornélio estaria hoje na cadeia e as duas famílias, com certeza, estariam assistindo à missa de sétimo dia.
(silvioafonso)


Comentários

  1. Antes que você venha falar o que eu claramente não quero ouvir, deixa eu te atualizar: já passei dos 18 anos faz tempo, tá? Mas vamos lá... Acho que desvelei o grande mistério de quem é esse "Tião". Se for o gênio que estou pensando, o sobrenome é Afonso, acertei? (só pode ser...)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O PÉ DO SUCUPIRA