O PÉ DO SUCUPIRA

        Não se sabe por que a tia tratava o sobrinho do seu marido melhor do que as irmãs dele. Das iguarias caseiras, o pedaço maior era dele; o copo de refresco, o mais cheio. Zezinho de Sucupira, como o pai o chamava, era um jovem quieto e grande demais para a idade — isso sem falar no tamanho do pé da criatura.
     Tia Bucelda vivia para agradá-lo como se fora seu próprio filho, o que o rapaz adorava. Gostava dos carinhos da parente, principalmente quando ela "errava" o alvo e tocava os lábios dele com os seus. Assanhada, pedia desculpas e limpava o batom do rosto do rapaz com a barra da saia. Aí é que o garoto enlouquecia pois, ao erguer o tecido, ela acabava revelando o que qualquer um na idade dele ansiava ver. Sempre que o episódio se repetia, ele passava a noite em claro. Não tinha cristão que conciliasse o sono testemunhando o que a mulher mostrava. Já a dona da casa não se importava: instigava-o sempre que podia.
— Com um pé desse tamanho, como será esse menino de verdade? — sussurrava para si mesma, intrigada.
   O protegido ficava inquieto quando a matrona o levava para conversar longe dos olhares alheios. Normalmente iam para o quarto, onde sempre sobrava um pedaço de perna à vista. Ela até já descobrira o que não devia, buscando obter dele a concessão para ver o que, naquela fase da vida, nenhum outro adolescente ousaria exibir.
    Bendita febre. Bastou esse mal-estar passageiro para que o tratasse como um anjo.
— Quietinho... — recomendou ela, com a voz mansa. — A titia vai trancar a porta para trocar essa sua roupa suada. Depois do remédio, você melhora.
    As mãos agiam rápido enquanto falava, esbarrando como quem não quer nada no que jazia adormecido, ansiando por despertar.
"Meu Deus do céu, ele já é um homem!", sobressaltou-se em pensamento, sentindo a reação sob seus dedos.
   Uma enxurrada de ideias audaciosas cruzou sua mente. Enquanto ela se perdia em devaneios, o enfermo, sob o efeito do sedativo, repousava; mas nem tudo ali pegara no sono. Altivo e firme, o volume despertava os desejos mais profundos daquela mulher.
    Mas... é melhor ser o que julgam de você do que alimentar ilusões vazias. A dúvida carregava o mesmo peso.
   Ninguém saberia dizer se o jovem apenas viajava em um delírio febril ou se, como ela costumava sugerir, já tinha maturidade para entregar à dona do quarto exatamente o que ela buscava naqueles momentos.
(silvioafonso)

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