MOTORISTA DE APLICATIVO

    Filho de um casamento desfeito, César Coelho cresceu introspectivo devido a uma surdez incurável. 
     Preso ao aparelho auditivo, focou a vida no trabalho como motorista de aplicativo. Numa noite chuvosa, um homem de capa bateu ao seu portão exigindo uma corrida intermunicipal. César gritou o preço pela janela; o cliente achou um roubo e o xingou. O motorista apenas fechou a vidraça e voltou a dormir.
     Na manhã seguinte, ao abrir a garagem, César foi surpreendido pelo agressor armado. Brigaram e o homem atirou. César acordou cinco dias depois no hospital, amparado pela mãe e pressionado por um detetive. O atirador já estava preso, aguardando apenas o depoimento da vítima.
      A sós no quarto, César recebeu a esposa do criminoso que não era mulher de se jogar fora. Ela ofereceu cinco mil reais para ele registrar o caso como acidente. Movido por vingança, ele contrapropôs: "Seu marido quis me matar. Só aceito se você me entregar o dinheiro e uma gravação dele confessando o crime".
    No dia da alta, vigiado de longe pela mulher e cobrado pelo policial, César fingiu instabilidade psicológica para adiar o depoimento. Despachou as autoridades e encontrou a cúmplice no corredor. Ela disfarsou e entregou uma sacola com o dinheiro e o áudio da confissão a ele. No fim da gravação, porém, o réu ameaçava alegar coação jurídica se César não cumprisse o trato. César reagiu frio: "Daqui a dois dias me encontre na porta desse hospital".
    No prazo, dentro do carro, o motorista mostrou um dispositivo falso e chantageou: "Troco essa gravação por duas horas com a senhora naquele motel ou a entrego a polícia". Visando salvar o parceiro, ela topou. Após quatro horas de luxúria, César entregou o objeto falso à mulher, que partiu de táxi aliviada.
   Sem perder tempo, César dirigiu-se à delegacia e entregou as provas reais ao delegado: "Foi tentativa de assassinato, doutor. Aqui está a confissão e o dinheiro do suborno".
    César voltou para casa feliz da vida. Enquanto isso, a mulher do algoz colocava os fones de ouvido na intenção de destruir a prova do crime, mas, no lugar da confissão, havia músicas do Zeca Pagodinho. Ela congelou. Olhou para o que tinha nas mãos e, percebendo que fora usada, desabou de joelhos. Agora, com o parceiro na tranca e ninguém para lhe fazer companhia, quem sabe não voltaria a procurar o motorista para... discutir o assunto?
(silvioafonso)

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